sábado, julho 16, 2011

Atitudes básicas perante um envenenado

As incontáveis substâncias que atualmente invadem e permanecem no ambiente doméstico, desde medicamentos (cada vez mais específicos e activos e, frequentemente mais perigosos) até aos cosméticos, passando por legiões de produtos de uso caseiro, têm feito aumentar, sobretudo nos países industrializados, os casos de intoxicação aguda.
Também nos meios rurais se verifica o mesmo fenómeno aqui devido, principalmente, aos fitofármacos (fertilizantes, antiparasitários, herbicidas, raticidas, etc) que são em número abundante e todos mais ou menos venenosos.
Muito pouco é, normalmente.posto em prática para prevenir ou limitar os possíveis acidentes e a facilidade de acesso a essas substâncias e a inconsciência ou ignorância com que a maioria das vezes são utlizadas aumentam substancialmente os factores de risco.
Cerca de 75% dos casos de intoxicação aguda acidental ocorrem em crianças de idades compreendidas entre 1 e 5 anos, altura em que o seu desenvolvimento mental se realiza, em grande parte, através do contacto com objectos que suscitam o seu interesse (e se encontram ao seu alcance) mediante o acto mais elementar e instintivo que é o de os levar à boca.
Também a tendência para imitar os adultos, especialmente no acto de ingerir medicamentos,ou de um certo espírito de iniciativa aliado à curiosidade, que pode ser acentuada pela proibição,contribuem para estimular uma criança, viva e turbulenta, tantas vezes a trepar caixotes, armários ou prateleiras até onde se escondem tão fascinantes mistérios.
É impossivel imaginar quais os objectos que excitam preferentemente a curiosidade das crianças pois o que é agradável para um adulto não o é necessariamente para ela ou o que àquele parece de todo em todo desinteressante pode,muitas vezes, ser muito apelativo para a criança.
As intoxicações em crianças muitojovens são mais frequentes nas famílias numerosas e pobres que vivem em casas pequenas e desarrumadas e ocorrem, a maior parte das vezes, quando os pais se ausentam e deixam as crianças sem uma vigilância permanente ou adequada.
Nas pessoas idosas, sobretudo naquelas em que a vista ou a memória estão diminuídas e, portanto, se esquecem facilmente, as intoxicações podem ser devidas a troca, por confusão, de um medicamento por outro mais nocivo ou, ainda, a um inadvertido aumento da dose ingerida.
Muitos acidentes são, pois, originados por acontecimentos fortuitos como fugas de gás do fogão, esquentadores ou aquecedores defeituosos,ou, ainda, por acondicionamento incorrecto de solventes ou produtos corrosivos em recipientes sem rótulo, etc. Porém casos há que são tentativas de suicídio ou, gestos de auto-agressão.
Pode acontecer  que a Farmácia, especialmente as sediadas longe dos hospitais ou dos centros de primeiros socorros, seja contactada por uma pessoa alarmada, em pânico,porque um familiar ou um vizinho foi vítima de um envenenamento.
Ao Farmacêutico ou ao Técnico de Farmácia não é formalmente consentido, quer por razões de deontologia, quer pela especificidade da sua preparação, administrar remédios ou andídotos que não sejam prescritos por um médico ou por um Centro anti-venenos especializado.
Todavia a Farmácia não pode furtar-se ao dever de prestar certos socorros com vista, por umlado, a limitar os danos produzidos pelo tóxico e, por outro, a contribuir, dentro do possível, para a recuperação do acidentado e para evitar os riscos de lesões irreversíveis.
Quando o paciente está em estado de choque ou muito cianosado, inconsciente ou em estado convulsivo, é imperioso proceder à sua transferência urgente para um centro preparado para o tratamento intensivo e específico. Enquanto essa remoção não se fizer e no casode se notarem dificuldades respiratórias, é muito útil encontrar alguém habilitado a praticar a respiração artificial (boca-a-boca, por exemplo) ou mesmo a massagem cardíaca externa. Esta situação é mais frequente quando a intoxicação é devida a inalação de gases tóxicos entre os quais predominantemente, figura o Monóxido de Carbono.
Há que tomar a iniciativa de evitar atitudes inadequadas por parte dos familiares ou de outrém e nunca esquecer que a luta contra os danos causados pelo veneno é sempre uma luta contra o tempo, em que cada minuto é precioso e, muitas vezes decisivo.
A primeira coisa a fazer é tranquilizar e alentar os familiares ou acompanhantes do sinistrado e, a seguir, com paciência e firmeza procurar recolher uma série de informações de valor capital para se avaliar da importância e extensão do envenenamento e para serem transmitidos ao Centro de Socorros ou ao médico mais próximo,ou seja:

- Identificação da substância tóxica em causa (marca, composição qualitativa e quantitativa, se possível, etc).

- Cálculo da quantidade ingerida (por exemplo, deduzindodo remanescente da embalagem, se disponível).

- Sexo, idade e peso corpóreo aparente do sinistrado.

- Eventual tratamento ou medidas de socorro já utilizadas.

- Tipo de acidente e tempo decorrido (se o envenenamento ocorreu no posto de trabalho é imperioso conhecer a actividade específica que rodeia o sinistrado e a natureza da sua função).

- Manifestações eventualmente apresentadas; dificuldade respiratória, vermelhidão, cianose, vertigens, cefaleias, náuseas, vómitos, diarreia, torpor, sonolência, se o doente aos estímulos verbais ou, pelo contrário, se está agitado, se as pupilas estão dilatadas (em midríase) ou, pelo contrário, contraídas (em miose), estado dopulso, tensão arterial, etc.

Embora seja absolutamente recomendável fazer sempre seguir o doente para o centro de tratamentos adequado é todavia útil ter presente algumas normas que correcta e prontamente aplicadas, podem evitar maiores danos e contribuir para uma evolução menos grave do quadro clínico e, quiça, para a recuperação do doente:

Evitar, em absoluto, provocar o vômito quando tiverem sido ingeridos:

- PRODUTOS CORROSIVOS (Ácidos minerais fortes de concentração superior a 3% ou ácidos acético, fosfórico, oxálico em concentrações superiores a 10%), produtos para a limpeza de sanitas, preparados anti-ferrugem, etc); substâncias de acção intensamente lesiva como os álcalis caústicos presentes nos produtos para desentupimento ou para a limpeza de fornos, etc, ou ainda os Carbonatos alcalinos, a Amónia e algumas aminas alifáticas, etc.

Com o vómito poder-se-ía aumentar as lesões e desse modo agravar a situação.

Nestes casos está indicada uma abundante diluição do conteúdo gástrico fazendo beber água ou leite e contra-indicado qualquer tentativa de neutralidade química.

- SOLVENTES À BASE DE PRODUTOS DA DESTILAÇÃO DO PETRÓLEO (Benzeno, Petróleo. Água raz, Gasolina, etc) ou À BASE DE HIDROCARBONETOS HALOGENADOS (Dicloropropano, Tetracloreto de Carbono e muitos outros).

Nestes casos o vómito poderia provocar a aspiração do tóxico para as vias respiratórias e criar assim o risco de se provocar uma Pneumonite química ou um edema pulmonar mesmo se as quantidades aspiradas fossem pequenas.

Para evitar esta possibilidade deve-se fazer ingerir 150 a 200 ml de Vaselina líquida que diminuirá a tensão superficial do solvente retardando, assim a sua absorção.

Sempre que se verifique a ingestão de corrosivos caústicos e solventes deve encaminhar-se, rapidamente, o sinistrado para o Hospital, avisando-o da situação.

- DETERGENTES E TENSIOACTIVOS ESPUMÍFEROS - Existe risco de aspiração como no caso precedente. Fazer ingerir um copo de água contendo 350-420 mg de Simeticone (4 ml de Aero-Om gotas ou 10 comprimidos de Aero-Om) que tem uma acção anti-espuma. Se ingeriu um detergente à base de Hipocloritos (Lixívia) torna-se necessário fazer beber 150 a 200 ml de um soluto de Tiossulfato de Sódio a 5%. Tal soluto é também indicado para os casos de ingestão de Tintura de Iodo ou outras soluções Iodo e/ou Iodetadas.
Se acontecer um vómito espontâneo devem-se remover eventuais próteses dentárias móveis e evitar a aspiração do material vomitado deitando o doente de flanco, com a perna que fica por cima ligeiramente flectida e a cabeça de lado (a posição a que em Socorrismo é hábito chamar-se Posição de Segurança. Recolher e conservar o material vomitado (a enviar ao Centro de socorro ou Hospital, eventualmente).

Não se deve administra leite ou emolientes de natureza gorda quando tiverem sido ingeridas substâncias lipossolúveis (casos da Cânfora, Clorobenzeno, Naftalina, Fósforo branco, Óleos essenciais, etc)

Se for recebida a indicação de provocar o vómito este pode ser induzido, depois de prévia remoção das próteses dentárias e da ingestão de 200a 300 ml de água, por estimulação retrobucal com o cabo de uma colher, por exemplo. O vómito pode ser provocado, também, com administração de Xarope Emético de Ipeca (na concentração de 7% de Extracto Fluído, segundo a USP) e numa dose proporcional à idade e ao peso corporal. O efeito desta medida verifica-se em cerca de 10 a 15 minutos. É conveniente recolher e conservar em recepientes adequados o produto do vómito e as fezes (no caso de haver diarreia) a fim de poderem ser remetidas ao Hospital ou Centro antivenenos mais próximo juntamente com rótulo (preferentemente com a embalagem e o conteúdo remanescente) do produto suposto causador do envenenamento.

No caso de o acidente ter repercussões cutâneas que por ataque directo quer diferido é necessário lavar abundatementea região afectada. Da mesma maneira se actuará ao nível dos olhos eventualmente atingidos utilizando soro fsiológico estéril.

Se o envenenamento se der por via rectal deve-se administra um enema de cerca de meio litro de água tépida.

Para além de referências sumárias mas das mais importantes que o eventual aparecimento de um envenenado na Farmácia nos sugeriu, termino recordando que é da máxima conveniência que exista em cada Farmácia uma pequena caixa de urgências que deverá conter:

            - Xarope emético de Ipeca USP,
            - Tiossulfato de Sódio a 5%, Soluto,
            - Simeticone (Aero-Om).

e recipientes adequados à recolha de material vomitado ou fezes, bem como alguns antídotos como:

            - Sulfato de Atropina (http://www.infarmed.pt/infomed/download_ficheiro.php?med_id=695&tipo_doc=fi),
            - Azul de Metileno a 1%,
            - Azul da Prússia puríssimo,
            - Carvão activado,
            - Desferroxamina (Desferal),
            - Dimercaprol (http://dicionario24.info/Ficheiro:Dimercaprol.svg)
            - Pralidoxima, etc.

em estado de perfeita conservação, periodicamente vigiada.

Mais informações visite: http://www.infarmed.pt/formulario/ficha.php?idc=286

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